Eclesiastes 1:2-18
Não pense
Não pensar, não é preciso.
17.3.26
Texto 26
Eclesiastes 1:2-18
13.5.25
Texto 25
Eu me lembro
Há 10 anos atrás
Daquela festa
Eu era tão novo
Com medo de se entregar
Eu era qualquer um
E agora sou eu
Que tenho que enfrentar
E agora sou eu
Que tenho os meus 32
32 dentes, o mundo na frente, não posso ficar pra trás
Aguenta muitos socos, eu sinto nos ossos, eu sinto ao acordar
Que agora sou eu
Que agora sou eu
Eu me lembro
Eu me lembro
Eu era qualquer um
Naquela festa
Naquela
31 é pouco, mas 32
32 é um pouco mais
E agora
sou eu
E agora sou eu
Composição: Ale Sater / Bruno Paschoal.
28.3.25
Texto 24
Eu só quero desabafar essa noite com você. Você me conhece. Eu conheço você. Dessa vez eu vou digitar tudo, sem ajuda de IA e sem ajuda de nada que não seja meus dedos e minha cabeça. Quero começar... por onde eu quero começar? Não tô sabendo de mais nada, mas que porra!
Vamos lá?! Acho que aquela tristeza tremenda tá voltando, mas antes, quando eu estava com a "vida certa" eu não me sentia completo de qualquer forma. Eu vou falar o que tô precisando desabafar, tipo jogando tudo, vai ficar tudo bagunçado mesmo, mas quero falar isso, quero digitar essas merdas, diretamente para você. Você sabe que é para você. Aliás, eu nem sei se você sabe que eu faço isso. Que eu venho aqui nessa bosta e fico jogando coisas que acho legais, inteligentes, bonitas e belas.
Mas ok. Thai, eu fiz muit... assim, não, isso você sabe. Você que sabe as merdas que eu fiz, quando estávamos juntos, naqueles poucos meses. Eu vou ser mais direto. Eu não esqueço você.
Desde 2018, quando você rompeu. Parece que ficou tudo meio merda pra mim. Primeiro que eu decidi que nunca mais ia amar alguém com amei você. E olha que tentei. Fiquei 5 anos com outra pessoa, mas nada. Não foi amor. Hoje, em 2025, estou na mesma. Eu nunca mais amei assim. Tive a primeira, a segunda, a terceira, e teve você. Eu não quero e não vou falar nomes, mas se um dia você quiser saber eu conto tudo.
Eu vivo falando com meu melhor amigo sobre você, sobre os sonhos que eu ainda tenho. É essa porra dessa idealização que eu fiz em cima de você. Talvez o seu rosto, seu corpo, seu cabelo, seu cheiro, o jeito que você me olhava cerrando os olhos quando ficava com raiva. Tudo isso, essas caracteristicas, isso tudo ficou grudado nas minhas memórias e é tudo tão vívido. Eu estou emocionalmente um caco, quebrado mesmo, mas sempre mantenho a postura onde quer que eu vá e com quem eu estiver. Eu procuro mesmo ser muito racional o tempo todo.
Eu fico ouvindo Terno Rei, Tim Bernardes, escondido de mim mesmo. É até engraçado, porque eu ouço sem querer ouvir, sabendo que imediatamente vou me lembrar de você. Eu quero entender essa porra! Você não sai da minha cabeça, não.
Com as outras, as primeiras namoradas, as namoradas que vieram antes de você, para cada um delas, eu sempre me entreguei, mas acho que nunca fui eu mesmo, ou nunca fui cem porcento como quando você me deu a chance de poder ficar com você. Te prometo que isso é verdade. Fico divagando "...será que um dia a gente vai se ver se falar? Se cumprimentar, sei lá...". É burrice, não acha? Eu sei o quanto eu te magoei, e não só a você, todas as outras. Eu sou uma falha quando se trata de relacionamentos a longo prazo, emocionalmente, se é uma mulher do outro lado.
Eu ia mandar um email pra você, mas lembrei que da outra vez, você acionou minha irmã, chamou a mim de stalker, e bom... eu não quero passar por isso, e então, torço, acredito, e tenho fé, ue você está lendo isso. Seja lá porque caralhos estaria, mas deve estar lendo sim.
Ah! Tem isso das músicas... tem os momentos (que são muitos) que eu tô sozinho e fico pensando em como seria se eu estivesse ao seu lado, o que eu seria se estívessemos lado a lado um do outro. Me desculpe por ter sido um ridículo com o seu irmão, eu gostava muito dele, e acho que ele gostava de mim. Eu sei onde errei, eu duvidei de você, ridicularizei você, desconfiei, tive ciúmes e ainda por cima, trai sua confiança depois que você terminou comigo. Penso que ainda poderíamos ter voltado, se eu não tivesse sido um cretino. Talvez tivesse sido, ou talvez eu tenha querido que tudo isso tivesse acontecido como aconteceu.
Tô cansado para caralho de tudo, tudo o que tenho estado fazendo: eu me formei, fiz uma pós, comecei um mestrado, tô trabalhando, iniciei outro curso, tô fazendo também, e ainda tô num mestrado, e ainda decidi que quero mais uma pós - mas para completar mesmo, comecei a pensar em ser policial (?) faz sentido uma porra dessa? Bom, meu ex sogro disse que eu tenho o perfil e isso ficou no meu insconsciente. Que bosta, cara, tudo está ainda nublado para mim. Eu sou um fracasso. Me sinto, perdido, sem rumo, sem casa (sem casa, não, eu me sinto bem onde moro atualmente), me sinto bem jogado no mundo, sem tutoria (e olha que já me acolheram muito bem, acho que eu quem não sei receber mesmo este tipo de cuidado).
Mas escuta só, lembra como era quando seu pai levava todo mundo para sair? Cara, era muito massa, eu me sentia tão da família. Eu fazia planos em segredo sobre como seria eu levando todo mundo para sair. Bobagem. Isso só mostra como eu era imaturo. Trabalhando igual um filho da puta naquele porra daquele posto de gasolina, me matei por uns meses, emgreci para caralho... vai tomar no cu, é muito trabalho para uma vida só. Você sabe, eu já trabalhei muito nessa vida, você me conheceu e eu trabalhava para a minha irmã. Depois mudei, depois entrei no mercado, ai foi merda atrás de merda. Minha avó morreu, fui adotado pela família da minha ficante na época, e foi com ela que fui morar e hoje tô aqui em Sobradinho. Muita coisa aconteceu, e eu espero um dia poder contar para você. Acho que nunca vai rolar, você provavelmente está tão à frente disso, de nós. E eu aqui, igual um burro. Será que você pensa em mim como eu penso você? (Acho que isso é de uma música).
Eu tô puto e cansado e quero saber se um dia serei feliz nessa porra de vida.
8.2.25
Texto 23
Os Botequins, de Dalton Trevisan, retirado da 6ª edição de Cemitério de Elefantes (1980).
9.3.24
Texto 22
Tanta gente passa, estou só!
O vento sopra pelo campo
E traz uma lembrança sua, estou só!
Já nem sei dizer qual desses lugares me dói mais
Mas sei me decidir porque cresci
Sou forte, estou pronto a lutar!
Eu fico louco, e a energia e o poder vão crescer
E bate, de repente, um desejo latente
Em romper limites e sonhar
Eu fico louco, mas um sorriso me faz entender, saber por que
Alguém esquece a dor e encontra no amor a força pra poder dizer
Arigatou gozaimasu!
Quantas vezes a felicidade
Tomou conta de todo o meu ser?
Quantas vezes tantas despedidas
Amargaram o meu coração?
Já nem sei dizer qual dos sentimentos marcou mais
Mas posso escolher o que quiser
Sou forte, estou pronto a lutar!
Eu fico louco, e a energia e o poder farei crescer
Desperto em minha mente um desejo ardente
Em romper limites e sonhar
Eu fico louco, nenhuma lágrima fará sofrer, entristecer
Se alguém lembrar do amor e trouxer o seu calor, o mundo todo vai dizer
Arigatou gozaimasu!
Eu fico louco, e a energia e o poder vão crescer
E bate, de repente, um desejo ardente
Em romper limites e sonhar
Eu fico louco, mas um sorriso me faz entender, saber por quê
Alguém esquece a dor e encontra no amor a força pra poder dizer
Eu fico louco, não há limites pra me derrubar, vou levantar
Pois tenho em mim coragem, poder e ambição
Não há tempo pra dor
Eu fico louco, e a solidão consigo encarar sem mais chorar
Mas se por acaso a tristeza retornar, lembro o que vai me animar
Hohoemi no Bakudan!
Composição: Luís Henrique Carneiro
Fonte: https://www.letras.mus.br/yu-yu-hakusho/675465/
25.9.23
Texto 21
Qual foi o pecado de Jó?
O sofrimento de Jó não foi castigo por pecado. Mas Jó não sabia a razão de seu sofrimento. Ele não sabia sobre a acusação de Satanás nem que Deus estava provando que seu amor era verdadeiro. Jó e seus amigos apenas sabiam que Deus é Justo, por isso não entendiam como uma pessoa inocente poderia sofrer. Eles pensavam que o sofrimento era sempre um castigo pelos pecados (Jó 4:7-9). Se isso era verdade, ou Jó estava em pecado, ou Deus estava sendo injusto.
Jó exigiu uma explicação para seu sofrimento mas Deus lhe mostrou que há coisas maiores que nós, que não podemos entender. Quando Deus falou, Jó entendeu que o mais importante não é entender porquê e se arrependeu de exigir explicações (Jó 42:1-3). Ele confiou em Deus, mesmo não recebendo explicação.
Deus declarou que os amigos de Jó estavam errados, provando que Jó não estava em pecado. Na verdade, foram os amigos de Jó que pecaram, falando coisas erradas sobre Deus! Mas quando os amigos de Jó se arrependeram e Jó orou por eles, Deus perdoou seu pecado (Jó 42:7-8). Deus restaurou a sorte de Jó, recompensando-o por sua fidelidade em meio a tanto sofrimento.
O sofrimento de Jó não foi por causa de pecado nem foi injustiça de Deus. Jó sofreu por razões que ele não poderia entender mas ele se manteve fiel e Deus não o abandonou. A grande pergunta de Jó não é: “por que Deus permite o sofrimento?”. A grande pergunta é: mesmo assim, você ainda ama a Deus?
24.7.23
Texto 20
23. A alegria do coração é a vida do homem, e um inesgotável tesouro de santidade. A alegria do homem torna mais longa a sua vida.
24. Tem compaixão de tua alma, torna-te agradável a deus, e sê firme; concentra teu coração na santidade, e afasta a tristeza para longe de ti,
25. Pois a tristeza matou a muitos, e não há nela utilidade alguma.
26. A inveja e a ira abreviam os dias, e a inquietação acarreta a velhice antes do tempo.
27. Um coração bondoso e nobre banqueteia-se continuamente, pois seus banquetes são preparados com solicitude.
17.11.22
Texto 19
Conto de amor, de Rubem Alves
Fonte: https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Pagina/Conto-Rubem-Fonseca
12.7.22
Texto 18
Todo o meu esforço canalizo para a vida. Não para o equilíbrio, não para as certezas. Caminho suportando nas costas todo o peso da desesperança, pois que a esperança, é ridículo, dramático, que a humanidade ainda precise de tê-la. Esperança em quê? Em remédios que curem?… Em poemas que se dão de mão em mão?E as cartas sem resposta?E os becos sem saída?E a nova hipocrisia?E o deus-dinheiro que nos espreita a cada esquina?… e a África? E a América Latina?…E todas essas universidades e tantos analfabetos?…Toda gente sabe a extensão da verdade: surpreendendo a paisagem esfomeada, o gatilho já não precisa do dedo de ninguém.
Esperança, de Cruzeiro Seixas
29.6.22
Texto 17
As pessoas que andam naquela rua, as gentis, as sábias,
as más, todas, todas serão memória, o mendigo que passa sem o cão,
o ginasta, a mãe, o bobo, o cético, a turista, deus, inclusive,
regendo o fim das coisas memoráveis, também será memória.
Deus e os pardais.
Os grandes esqueletos do museu britânico e todo sofrimento serão memória.
Eu, sentado aqui, serei só esses versos que dizem haver um eu sentado aqui.
Antônio Brasileiro
2.5.22
Texto 16
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta. Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa,.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com maiakoviski – seu criador. Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.
22.4.22
Texto 15
Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas —
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
«Se é que ele as criou, do que duvido.» —
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?
“O Guardador de Rebanhos”.
In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e
notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed.
1993).
22.2.22
Texto 14
Se eu tivesse tido dez porcento do que sei hoje há dez anos, talvez hoje eu seria outra pessoa, porém, se eu tivesse tido esses mesmos dez porcento do que sei hoje há dez anos, talvez hoje eu não seria quem sou.
Paradoxo dos dez, de Emanuel Gomes
17.9.21
Texto 13
Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, Para encontrar os que a "descobriram" só há 500 anos. O irmão europeu da aduana me pediu um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financista europeu me pede o pagamento - ao meu país- , com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão europeu me explica que toda dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento. Eu também posso reclamar pagamento e juros.
Consta no "Arquivo da Cia. das Índias Ocidentais" que, somente entre os anos 1503 e 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América.
Teria sido isso um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento! Teria sido espoliação? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão.
Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a atual civilização européia se devem à inundação de metais preciosos tirados das Américas.
Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas indenização por perdas e danos.
Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva.
Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano "MARSHALL MONTEZUMA", para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, e de outras conquistas da civilização.
Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional responsável ou pelo menos produtivo desses fundos?
Não. No aspecto estratégico, dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em terceiros reichs e várias formas de extermínio mútuo. No aspecto financeiro, foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus juros quanto independerem das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.
Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente, temos demorado todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo.
Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça. Sobre esta base e aplicando a fórmula européia de juros compostos, informamos aos descobridores que eles nos devem 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambas as cifras elevadas à potência de 300, isso quer dizer um número para cuja expressão total será necessário expandir o planeta Terra.
Muito peso em ouro e prata... quanto pesariam se calculados em sangue?
Admitir que a Europa, em meio milênio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para esses módicos juros, seria como admitir seu absoluto fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas.
Tais questões metafísicas, desde já, não inquietam a nós, índios da América. Porém, exigimos assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente e que os obriguem a cumpri-la, sob pena de uma privatização ou conversão da Europa, de forma que lhes permitam entregar suas terras, como primeira prestação de dívida histórica..."
Quando terminou seu discurso diante dos chefes de Estado da Comunidade Européia, o Cacique Guaicaípuro Guatemoc não sabia, mas estava expondo uma tese de Direito Internacional para determinar a Verdadeira Dívida Externa.
Agora resta que algum Governo Latino-Americano tenha a dignidade e coragem suficiente para impor seus direitos perante os Tribunais Internacionais. Os europeus teriam que pagar por toda a espoliação que aplicaram aos povos que aqui habitavam, com juros civilizados.
Publicado no Jornal do Comércio - Recife/PE- Brasil.
21.7.21
Texto 12
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver...
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos.
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim.
Na noite terrível, de Álvaro de Campos
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
16.4.21
Texto 11
Durante debate em uma universidade, nos Estados Unidos,o ex-governador do DF, ex-ministro da educação e atual senador Cristóvam Buarque, foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem americano introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um Humanista e não de um brasileiro. Esta foi a resposta do Sr..Cristóvam Buarque:
5.12.20
Texto 10
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância.
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Lisbon Revisited, de Álvaro de Campos
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
Fonte: http://arquivopessoa.net/textos/153
9.11.20
Texto 9
Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu fiquei em silêncio; eu não era um social-democrata.
Quando eles vieram buscar os sindicalistas, eu não disse nada; eu não era um sindicalista.
Quando eles buscaram os judeus, eu fiquei em silêncio; eu não era um judeu.
Quando eles me vieram buscar, já não havia ninguém que pudesse protestar.
Martin Niemöller; nasceu na cidade de Lippstadt, na Vestefália, na Alemanha, no dia 14 de janeiro de 1892.
Fonte: https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/martin-niemoeller-first-they-came-for-the-socialists
30.5.20
Texto 8
Um olhar que te encontra em qualquer lugar
Estamos frente a frente enquanto a noite cai
E vai aos poucos envolvendo nossas mãos assim
Até que tudo se desfaz
É tão estranho a gente não combinar
Se de repente
A força para viver vai mostrar
Que foi bom, que valeu
Se não acontecer
A gente fez o que é certo
Não vou me machucar
Eu nem me importo mais
Só quero que você me entenda
Somos diferentes é só deixar passar
Eu vou dizer adeus
Eu nem me importo mais
Só quero que você me entenda
Somos diferentes é só deixar passar
Sayonara bye bye
31.3.20
Texto 7
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Aniversário, de Álvaro de Campos
Fernando Pessoa - Obra Poética. Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 379.
20.2.20
Texto 6
Quero ser o
maior de todos
O lendário sonhador
No presente, no futuro
Indo aonde for
É mesmo,
hoje eu percebi eu sei
São tantas questões
Quem sou eu
Eu não sei
Se eu cair bem rápido vou me levantar
Não vou fugir a chance pode me escapar
Sou o maior que já surgiu
Sonhador que conseguiu
Voar mais alto que todos
Vou em direção ao amanhã
Não penso em parar eu não
Ninguém me deterá
Vou ser o maior de todos
O lendário sonhador
Eu conquisto o presente
Com a certeza do que sou
19.2.20
Texto 5
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é Natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casaca dourada e inútil das horas…
Eu seguraria todos os meus amigos, que já não sei como e onde eles estão e diria: vocês são extremamente importantes para mim.
Dessa forma eu digo, não deixe de fazer algo que gosta devido a falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
Quando se vê não sabemos mais por onde andam nossos amigos...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Eu seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
Fonte: https://prosped.com.br/arte/poema-mario-quintana-o-tempo/
9.1.20
Texto 4
Na verdade, gritou e esperneou.
Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.
Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento.
Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz. Foram lhe provocando por toda a vida. Não pôde ir à escola porque tinha que ajudar na roça.
Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça.
Na cidade, para onde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado.
Resistiu a todas.
Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar.
Ir para um barraco pior.
Ficou firme.
Queria um emprego, só conseguiu um subemprego.
Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos.
Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.
Estavam lhe provocando.
Gostava da roça. O negócio dele era a roça.
Queria voltar pra roça. Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era.
Parece que a ideia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.
Terra era o que não faltava. Passou anos ouvindo falar em reforma agrária.
Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera.
Amanhã.
No próximo ano.
No próximo governo.
Concluiu que era provocação.
Mais uma.
Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo.
Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou.
Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir.
Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.
Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim.
Talvez amanhã.
Talvez no próximo ano…
Então protestou.
Na décima milésima provocação, reagiu.
E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:
– Violência, não!
Provocações, de Luís Fernando Veríssimo
Fonte: https://www.recantodasletras.com.br/contos/1854904
18.12.19
Texto 3
Caso você esteja contando comigo para operacionalizar algo, vou dizendo desde já: pode tirar seu cavalinho da chuva. Eu não operacionalizo nada para ninguém. Tampouco compactuo com quem operacionalize. Se você quiser, eu monto, eu realizo, eu aplico, eu ponho em operação. Se você pedir com jeitinho, eu até implemento. Mas, operacionalizar, jamais.
O quê? Você quer que eu agilize isso para você? Lamento, mas eu não sei agilizar nada. Nunca agilizei. Está lá no meu currículo: faço tudo, menos agilizar. Precisando, eu apresso, eu priorizo, eu ponho na frente, eu dou um gás. Mas agilizar - desculpe, não posso, acho que matei essa aula.
Outro dia mesmo queriam reinicializar meu computador. Só por cima do meu cadáver virtual! Prefiro comprar um computador novo a reinicializar o antigo. Até porque eu desconfio que o problema não seja assim tão grave. Em vez de reinicializar, talvez seja o caso de simplesmente reiniciar, e pronto.
Por falar nisso, é bom que você saiba que eu parei de utilizar. Assim, sem mais nem menos. Eu sei, é uma atitude um tanto quanto radical da minha parte, mas eu não utilizo mais nada. Tenho consciência de que a cada dia que passa mais e mais pessoas estão utilizando, mas eu parei. Não utilizo mais. Agora eu só uso. E recomendo. Se você soubesse como é muito mais elegante, também deixaria de utilizar e passaria a usar.
Sim, estou me associando à campanha nacional contra os verbos que acabam em "ilizar". Se nada for feito, daqui a pouco eles serão mais numerosos do que os terminados simplesmente em "ar". Todos os dias os maus tradutores de livros de marketing e administração disponibilizam mais e mais termos infelizes, que imediatamente são operacionalizados pela mídia, reinicializando palavras que já existiam e eram perfeitamente claras e eufônicas.
A doença está tão disseminada que muitos verbos honestos, com currículo de ótimos serviços prestados, estão a ponto de cair em desgraça entre pessoas de ouvidos sensíveis. Depois que você fica alérgico a disponibilizar, como você vai admitir, digamos, "viabilizar"? É triste demorar tanto tempo para a gente se dar conta de que "desincompatibilizar" sempre foi um palavrão.
Precisamos reparabilizar nessas palavras que o pessoal inventabiliza só para complicabilizar. Caso contrário, daqui a pouco nossos filhos vão pensabilizar que o certo é ficar se expressabilizando dessa maneira. Já posso até ouvir as reclamações: "Você não vai me impedibilizar de falabilizar do jeito que eu bem quilibiliser". Problema seu. Me inclua fora dessa.
Fonte: https://www.administradores.com.br/artigos/complicabilizando-ricardo-freire
28.9.19
Texto 2
6.9.19
Texto 1
Dario vem apressado, guarda-chuva no braço
esquerdo.Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a
uma parede.Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva.Descansa na pedra o cachimbo. Dois ou três passantes à sua volta indagam se não
está bem.Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta.O senhor
gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.Ele reclina-se mais um pouco,
estendido na calçada, e o cachimbo apagou.O rapaz de bigode pede aos outros se
afastem e o deixem respirar.Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a
cinta.Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma
surgem no canto da boca.Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o
pode ver.Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de
pijama acodem à janela.O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada,
soprando a fumaça do cachimbo,encostava o guarda-chuva na parede.Mas não se
vê guarda-chuva ou cachimbo a seu lado.A velhinha de cabeça grisalha grita que
ele está morrendo.Um grupo o arrasta para o táxi da esquina.Já no carro a
metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida?Concordam chamar
a ambulância.Dario conduzido de volta e recostado à parede não tem os sapatos
nem o alfinete de pérola na gravata.Alguém informa da farmácia na outra rua.Não
carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do
mais, muito peso.É largado na porta de uma peixaria.Enxame de moscas lhe
cobrem o rosto, sem que façam um gesto para espantá-las.Ocupado o café próximo
pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo,gozam as
delícias da noite.Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o
relógio de pulso.Um terceiro sugere lhe examinem os papéis,retirados com
vários objetos de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca.Ficam sabendo
do nome, idade, sinal de nascença.O endereço na carteira é de outra cidade.Registra-se
correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora,ocupam toda a rua e as
calçadas: é a polícia.O carro negro investe a multidão.Várias pessoas
tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.O guarda aproxima-se do
cadáver, não pode identificá-lo os bolsos vazios.Resta na mão esquerda a
aliança de ouro,que ele próprio quando vivo só destacava molhando no sabonete.A polícia decide chamar o rabecão. A última boca repete.Ele morreu, ele
morreu. A gente começa a se dispersar.Dario levou duas horas para morrer,
ninguém acreditava estivesse no fim.Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar
de um defunto.Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a
cabeça.Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a
espuma sumiu.Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café
ficam vazias.Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os
cotovelos.Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao
lado do cadáver.Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto
desbotado pela chuva.Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá
está Dario à espera do rabecão.A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo
sem a aliança.O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a
cair.
Uma vela para Dario, de Dalton Trevisan. Publicado em 1964 no
livro Cemitério dos Elefantes
Uma vela para Dario, de Dalton Trevisan. Publicado em 1964 no livro Cemitério dos Elefantes