6.9.19

Texto 1

Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo.
Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede.
Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva.
Descansa na pedra o cachimbo. Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem.
Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta.
O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.
Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou.
O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar.
Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta.
Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca.
Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver.
Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela.
O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo,
encostava o guarda-chuva na parede.
Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo a seu lado.
A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo.
Um grupo o arrasta para o táxi da esquina.
Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida?
Concordam chamar a ambulância.
Dario conduzido de volta e recostado à parede não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.
Alguém informa da farmácia na outra rua.
Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso.
É largado na porta de uma peixaria.
Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que façam um gesto para espantá-las.
Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo,
gozam as delícias da noite.
Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.
Um terceiro sugere lhe examinem os papéis,
retirados com vários objetos de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca.
Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença.
O endereço na carteira é de outra cidade.
Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora,
ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia.
O carro negro investe a multidão.
Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.
O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo os bolsos vazios.
Resta na mão esquerda a aliança de ouro,
que ele próprio quando vivo só destacava molhando no sabonete.
A polícia decide chamar o rabecão. A última boca repete.
Ele morreu, ele morreu. A gente começa a se dispersar.
Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim.
Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto.
Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça.
Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu.
Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias.
Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.
Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver.
Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.
Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão.
A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança.
O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.

Uma vela para Dario, de Dalton Trevisan. Publicado em 1964 no livro Cemitério dos Elefantes