Noite fria e, como todas as noites, o botequim deserto, José sentava-se à mesa do
fundo, o gordo vinha com a garrafa. Enquanto ele ficava no botequim (e ficava até a hora de
fechar), o gordo deixava a garrafa aberta no balcão. José trazia o jornal dobrado no bolso. O
cálice fazia um círculo na mesa.
Antes de beber, lia uma notícia inteira. Erguendo o cálice e fechando os olhos, engolia
dum trago. Ao abri-los, via no teto a sombra redonda da lâmpada. O gordo contornava o
balcão, enchia o cálice até a borda, derramada uma gota. José esperava o dia em que, atrás do
jornal, iria lamber a gota perdida.
Na quarta ou quinta dose bebia em mais de um gole. Estendia as pernas sob a mesa,
contemplava a sombra do teto, lia o jornal. Não olhava para o gordo de calva brilhosa,
galhinho de arruda na orelha. Se demorava em servir, José batia o cálice na mesa.
O botequim era corredor escuro, três ou quatro mesas encostadas à parede e o balcão
no meio, atrás do qual o gordo curvava a cabeça sob as garrafas. No balcão um vidro de
pepinos com mancha de bolor no vinagre.
E nenhum espelho na parede. José não gostava de se olhar. Descobriu aquele botequim
e vinha, toda noite, sentar-se à sua mesa, o jornal no bolso. Sempre o mesmo, puído nas
dobras. Lia notícia completa antes de emborcar a primeira dose.
Raros intrusos que se aventuravam no botequim davam as costas a José. Quem gosta
de ficar, no botequim vazio, de cara com um desconhecido? A sua mesa junto ao reservado.
Cada vez que alguém entrava, José sentia o odor ácido de amoníaco. De chapéu, o rosto na
sombra, bebendo seus tragos. Hora de fechar, o gordo tirava da barriga o avental sujo e, sem
olhar para o cliente, contava o dinheiro na gaveta.
José avançava preguiçoso ao longo das mesas. Tinha casa e família, preferia o
botequim, desenhando na mesa os círculos úmidos. Botequim frio, escuro e pestilento. Com
ninguém falava, sequer o patrão. Ali não se sentia só. No balcão a garrafa aberta. Mulher
alguma diria: Não beba mais, por favor... Pelas cinco chagas de Nosso Senhor, seja esse o
último cálice! Não tinha vergonha de beber no botequim. O gordo era pessoa que
compreendia as coisas. Além do mais, não havia espelho.
O gordo compreendia. Quando José não tinha dinheiro, deixava o jornal no bolso,
depois do quinto cálice ainda o bebia dum trago. Fim de noite, empurrava a cadeira e saía,
sem que o patrão corresse atrás. Noite seguinte, voltava; o relógio no bolsinho do colete, a
aliança na mão balofa do gordo haviam sido a sua aliança e o seu relógio. Por amor da família
– se é que tinha família – sujeitava-se a encher o cálice do único freguês?
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No balcão, ao lado do vidro de pepinos, um prato com ovos cozidos, a casca escura de
pó. O gordo ali debruçado, raminho fresco de arruda na orelha. Medo da solidão, conservava
o botequim aberto, na esperança de que alguém entrasse? O último bar funcionando no
domingo, sem a fumaça dos cigarros, sem o burburinho das vozes, sem o bafo azul dos
bebedores.
Naquela noite um desconhecido surgiu no botequim deserto, além do gordo e de José
na mesa do fundo. Em vez de dar-lhe as costas, sentou-se à mesa próxima. O patrão serviu-o e
retirou-se. O outro saudou José e, lívido, careta de medo, misturou o pó rosado no copo.
José observou a sombra redonda no teto, as duas manchas de goteira, o vizinho que,
depois de beber, deixava a cabeça cair na mesa e o braço pender ate o chão – lentamente o
copo veio rolando a seus pés.
O gordo, sem tirar o avental, recolhia o dinheiro da gaveta. José afastou-se devagar e,
a cada passo, sentia a meia encharcada. Por mais cansado, podia andar a noite inteira na
chuva, não era hora de ir para casa. Teria de achar outro botequim e começar outra vez.
Os Botequins, de Dalton Trevisan, retirado da 6ª edição de Cemitério de Elefantes (1980).
Os Botequins, de Dalton Trevisan, retirado da 6ª edição de Cemitério de Elefantes (1980).