28.9.19

Texto 2

Três momentos de um conto de Manuel Scorza sobre a criação do primeiro sindicato rural em cerro de pasco, no peru, no ano de 1903.
O coronel Migdonio se dignou a sair à varanda.
"Então, vocês querem criar um sindicato?" "Se o patrão permitir", respondeu Félix. "Quantos estão de acordo?" "Treze, senhor." "Vá buscá-los. Quero falar com todos."
Na vastidão da memória, ninguém se lembrava de que peão algum tivesse penetrado na casa grande. Cobertos por seus ponchos, os camponeses sentiam que se excediam, mas não tiveram remédio senão entrar.
"Que desejam, meus filhos?" Perguntou Don Migdonio afavelmente.silêncio."Não se constranjam. Não me oponho ao sindicato. Não, não me oponho. Pelo contrário, eu os felicito.Vivemos uma época de mudanças. Todos queremos o progresso. brindemos ao sindicato!"
A um sinal do fazendeiro, um criado entrou na sala com uma garrafa e copos para todos."Vou brindar com o copo vazio.
É que ontem me excedi. Saúde, rapazes!", bradou jovialmente Dom Migdonio.
Jaramillo foi o primeiro a desabar.
Tombaram outros três fulminados e os demais revolveram-se na agonia de um retorcimento de tripas.
"Filho da puta!", conseguiu dizer Félix antes de borrar-se com as tripas queimadas pelo veneno.
O juiz, doutor Francisco Montenegro e o sargento Cabrera chegaram às seis horas da tarde escoltados por um piquete de guardas civis. Fecharam-se no escritório com Don Migdonio.
O que o juiz, o fazendeiro e o sargento discutiram permanece até hoje em mistério.
Para desmentir testemunhas que naquele distante ano de 1903 juraram ter visto os três sairem abraçados, rindo, os historiadores oficiais exibem uma prova irrefutável: um comunicado oficial das autoridades, informando que os catorze camponeses tinham sido fulminados por um "enfarte coletivo".

6.9.19

Texto 1

Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo.
Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede.
Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva.
Descansa na pedra o cachimbo. Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem.
Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta.
O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.
Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou.
O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar.
Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta.
Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca.
Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver.
Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela.
O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo,
encostava o guarda-chuva na parede.
Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo a seu lado.
A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo.
Um grupo o arrasta para o táxi da esquina.
Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida?
Concordam chamar a ambulância.
Dario conduzido de volta e recostado à parede não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.
Alguém informa da farmácia na outra rua.
Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso.
É largado na porta de uma peixaria.
Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que façam um gesto para espantá-las.
Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo,
gozam as delícias da noite.
Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.
Um terceiro sugere lhe examinem os papéis,
retirados com vários objetos de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca.
Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença.
O endereço na carteira é de outra cidade.
Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora,
ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia.
O carro negro investe a multidão.
Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.
O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo os bolsos vazios.
Resta na mão esquerda a aliança de ouro,
que ele próprio quando vivo só destacava molhando no sabonete.
A polícia decide chamar o rabecão. A última boca repete.
Ele morreu, ele morreu. A gente começa a se dispersar.
Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim.
Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto.
Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça.
Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu.
Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias.
Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.
Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver.
Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.
Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão.
A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança.
O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.

Uma vela para Dario, de Dalton Trevisan. Publicado em 1964 no livro Cemitério dos Elefantes